A Feira da Messejana, um dos points mais tradicionais do comércio popular de Fortaleza, virou nas últimas semanas cenário inusitado para um fenômeno musical. Foi ali, entre barracas de alimentos e eletrônicos, que a cantora e compositora Camaleoa, de 29 anos, gravou o clipe de "Nordesdiva", lançado há um mês e que rapidamente se tornou a faixa mais ouvida de sua carreira em plataformas como YouTube e Spotify, ganhando projeção nacional.
A escolha do local não é estética de acaso. Foi justamente na Feira da Messejana que a artista teve seu primeiro contato com a música pop, através de DVDs piratas comprados pela mãe, Ana - material que a apresentou a divas como Britney Spears, hoje sua maior referência artística. "A feira me deu a chance de ter acesso à arte, porque a arte, e música em geral, é algo caro e inacessível para quem faz e para quem consome", contou Camaleoa em entrevista.
Um mapa afetivo de Fortaleza em cada videoclipe
Além de "Nordesdiva", a cantora lançou outros cinco singles em 2024, cada um acompanhado de um clipe gravado em um bairro diferente da capital cearense: "Fortal Kiss", no Centro; "Azul Royal", no Mucuripe; "Fã Number One", na Cidade 2000; "Prateleira", parceria com Mulher Barbada, na Praia de Iracema; e "Charmosa", na Aldeota. O conjunto de produções forma um retrato alternativo da cidade, que a artista descreve como uma tentativa de ir além da Beira-Mar e mostrar outras camadas do cotidiano fortalezense.
O próximo capítulo dessa trajetória já tem destino certo: a Barra do Ceará, bairro onde Camaleoa cresceu, deve ser cenário de um novo single e clipe no mês que vem, antecipando o lançamento do segundo álbum de estúdio da artista, previsto para 2026 - sete anos após "Camaleoa" (2019). "Acho que nada é mais lindo do que a Barra. E sinto que, ao mesmo tempo, ela não é valorizada como merece", afirma.
Pop de baixo custo, mas de alta ambição
Com recursos limitados, típicos da carreira independente, Camaleoa transformou a escassez em identidade visual. As gravações de "Nordesdiva" aconteceram em um dia comum de feira, com feirantes e clientes reagindo entre curiosidade e apoio espontâneo. "As pessoas gostam desse pop bem perfeito, muito calculado, muito ensaiado. E nesse projeto isso nem é possível nesse momento. Então é trabalhar com a realidade e fazer essa realidade soar pop também", explica.
O caminho até aqui não foi linear. Aos 16 anos, a artista postava covers no Facebook; aos 18, migrou para o YouTube e começou a disputar festivais de música autoral em Fortaleza. O primeiro álbum, lançado de forma independente ao longo de dois anos, trazia influências de nova MPB, pop rock e blues - um som que, segundo ela, ainda não refletia totalmente sua identidade artística. A virada para o pop coreografado, por volta de 2020, marcou o momento em que a cantora sentiu ter encontrado seu lugar.
Inspiração em Anitta e Matuê para construir mercado próprio
Idealizadora do projeto "No Ceará Tem Pop", Camaleoa cita Anitta como referência central para entender o poder do audiovisual na música pop brasileira. "A Anitta fez um movimento de fazer o pop ser consumido de novo no Brasil, porque ela com certeza mudou o mercado quando ela entrou nesse mercado", diz. A cantora também recorre ao exemplo de Matuê e a consolidação do trap cearense como prova de que é possível construir um gênero musical de dentro do estado, sem depender do eixo Rio-São Paulo.
Sem datas de shows confirmadas no Ceará, a artista se apresenta no dia 16 em São Paulo, no Kat Klub SP, na festa "Fica, vai ter pop", onde deve levar ao palco "Nordesdiva" e outros sucessos recentes. Enquanto isso, o novo álbum segue em produção, consolidando um movimento que busca provar, pela prática, que o pop brasileiro também nasce - e pode prosperar - fora do Sudeste.