O longa mexicano "Who's a Good Boy?", estreia na direção de Ihtzi Hurtado, chega ao catálogo da Netflix como uma comédia adolescente que mistura constrangimento, afeto e piadas de humor escrachado. A cena em que Chema (Sebastian Dante), seminu e em pânico no quarto de Claudia, resume o espírito do filme: irregular, por vezes exagerado, mas com lampejos de inteligência cômica.
Um retrato da ansiedade adolescente
A trama acompanha Chema, um jovem ansioso e virgem que busca perder a inocência antes de se formar no colégio. Com a ajuda dos tios e uma sequência de encontros desastrosos, ele enfrenta os desafios de namoro, amizade e autodescoberta. O filme bebe claramente da fonte de clássicos como "American Pie" e "Superbad", mas tenta imprimir uma identidade mexicana própria, ainda que a condução da história oscile entre o cômico e o emocional sem encontrar um equilíbrio constante.
Atuações sustentam o roteiro desigual
O maior trunfo da produção está no elenco. Sebastian Dante carrega o filme com comédia física e reações faciais expressivas, tornando Chema ao mesmo tempo patético e cativante. Sirena Ortiz, como Claudia, entrega uma personagem mais complexa do que o estereótipo de "garota popular que brinca com sentimentos" sugeriria à primeira vista. Já Adrian Vazquez, no papel do tio Jaime, rouba cenas com humor seco, e sua química com Dante confere calor humano a uma trama que, sem isso, correria o risco de soar vazia. A amizade entre Chema, Eli (Luisa Guzmán Quintero) e Hugo (Diego Meléndez) também funciona como ponto de ancoragem emocional em meio aos exageros da narrativa.
Roteiro inconsistente e clichês recorrentes
Apesar da comédia visceral - o ataque de pânico de Chema no quarto de Claudia é genuinamente engraçado -, o roteiro perde ritmo em vários momentos. O segundo ato sofre com subtramas mal desenvolvidas, disputando atenção sem espaço para amadurecer. A resolução do relacionamento entre Chema e Eli surge de forma abrupta, assim como o desfecho com Claudia, que soa satisfatório mas é ofuscado pela pressa narrativa que o sucede.
Direção e fotografia: energia caótica, nem sempre eficaz
Hurtado opta por uma câmera na mão que reforça a sensação de caos da adolescência, mas que em certos momentos compromete a clareza visual. Os closes durante os picos de ansiedade de Chema funcionam bem, destacando seu conflito interno, porém os cortes rápidos e o ritmo frenético prejudicam a fruição de cenas que mereciam respirar mais. O clímax, ambientado durante as tradicionais Posadas mexicanas, é o ponto alto do filme, equilibrando humor e profundidade emocional ao mostrar Chema finalmente encarando seus medos - inclusive sua escolha de seguir música em vez de engenharia, arco que, embora tocante, parece resolvido às pressas.
Um debute ambicioso, mas ainda em formação
"Who's a Good Boy?" não alcança o acabamento de "Superbad" ou "Booksmart", mas tem personalidade própria e um olhar cultural específico que vale a pena ser notado. É um filme que tropeça, mas também acerta, sustentado por boas atuações e momentos de humor genuíno. Para o público jovem - e também para adultos nostálgicos de suas próprias trapalhadas adolescentes -, a obra de Hurtado entrega uma mistura imperfeita, porém sincera, de comédia e amadurecimento.